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Crônica: Passagem

  • 31 de mar.
  • 3 min de leitura

Era pra ser uma passagem rápida no supermercado. O objetivo era comprar uma caixa de cerveja pro ensaio da banda. O cheque especial salva a alegria do pessoal. Claro que fui buscar em uma rede grande, já que o preço costuma ser mais acessível que nas distribuidoras e mercados de bairro. Só que algum feriado cristão que eu não me recordava da existência fez o mercado encarnar uma cena de The Walking Dead. E lá estava eu, de peito estufado na fila, com a camiseta do Infernal Atröz, esbanjando orgulhosamente um pentagrama satânico na multidão de crucifixos. 


A fila não andava, todo mundo tinha alguma questão para resolver; era um cartão que não passava, uma câmera ruim que não lia o QR code do pix, a moça do caixa pedindo troco pra gerente e amaldiçoando alguém que quis fazer uma compra pequena com uma nota de duzentos reais, ou algum senhorzinho checando todos os itens da nota fiscal, e argumentando que não comprou quatro caixas de leite, quando tinha exatamente essa quantidade no seu carrinho. Maldita hora pra esquecer os fones de ouvido em casa. Fiquei tocando Cäbränegrä no interior da minha mente, para acalmar a cabeça e os ânimos. 


E eu esperei, e esperei, e esperei. A essa hora, o baterista já tinha preparado seu kit com mais pratos do que precisava, o vocalista já tinha fumado mais cigarros do que o recomendado para ensaiar o setlist, o baixista finalmente tinha afinado o instrumento, e o outro guitarrista… Ah, o outro guitarrista provavelmente ainda não tinha chegado. A gente compartilha essa rebeldia com o relógio. 


E eu esperei, e esperei, e esperei. Parecia uma longa introdução de rock progressivo, daquelas que quando você apresenta para um amigo com um sorriso idiota na cara, e o amigo sério escuta com atenção a mesma nota sendo tocada por dois minutos que parecem horas, e ele te pergunta: “já começou?”


E eu esperei, e esperei, e esperei. A espera faz parte do progresso da humanidade. A gente espera o tempo todo por alguma coisa. Nascemos e esperamos o tempo inteiro. Mas nascemos com pressa, seja a pressa de sair andando para explorar esse mundo catastrófico, ou a pressa para aprender a falar e expressar a tal catástrofe. Depois, na adolescência, esperamos o professor parar de falar, esperamos as notas e a aprovação, esperamos o fim do ciclo escolar, esperamos a mensagem da paixonite passageira. Esperamos depois a resposta do RH para saber se fomos de fato contratados, e esperamos mais um pouco para eles revelarem o salário misterioso que até então não tinha sido esclarecido. E esperamos o aumento que nunca vem. Saindo do trabalho, esperamos o ônibus para voltar para casa, e os mais privilegiados esperam o trânsito dentro de seus carros, que também estão esperando acabar o financiamento. Esperamos a chuva cessar para passear em um lugar bonito, e esperamos o sol parar de carbonizar nossa pele para ir pro mesmo lugar bonito que antes havíamos planejado ir. Esperamos o ônibus mais uma vez. E a porra do zarco está atrasado de novo. Mas o motorista estava esperando também, alguma coisa que não sabemos. Esperamos a resposta da vida. Pra onde vamos? Pra onde estou indo? Pra que isso tudo? Será que um dia seremos ouvidos? A gente espera o envelhecimento. Os cabelos vão ficando mais frágeis e caindo, os músculos já não são mais os mesmos, a carcaça vai apresentando sinais de desgaste, e os sonhos vão definhando como nossos órgãos. A gente espera a morte. Cada dia ela chega mais perto, uma sombra fria, calma, inesperada, mas acolhedora, quem sabe, quem poderia saber e nos avisar? Um dia haverá descanso. Um dia a espera acaba, e não haverá mais filas ou ponteiros indicando que devemos nos apressar. Chegou a minha vez.


Passei a caixa de cerveja, olhei para trás. Havia uma fila apocalíptica. Sorri para a atendente, pedi para pagar no pix. Meu celular não leu direito o QR code, então busquei meu cartão de crédito pra pagar. Sorri para a moça, ela não retribuiu. Ela também estava esperando o fim do expediente. Desejei um bom dia de trabalho e um excelente final de semana. Ela agradeceu. Era pra ser só uma passagem rápida no supermercado, mas eu estava com pressa.


Lucas Amorim



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