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A cena respira.

  • 5 de abr.
  • 2 min de leitura

Estou com muita preguiça de escrever esse texto, mesmo assim, tem algo lá no fundo que me faz querer falar algo sobre a última sexta-feira. Normalmente alguém que vai descrever um show de metal começaria o texto com o tradicional lead jornalístico, ou algum gatilho diferentão, mas eu preferi ser sincero mesmo.


O cansaço recorrente anda impedindo a gente de frequentar espaços como esses, e talvez isso seja natural. Trabalhar é exaustivo, conversar é exaustivo, tocar é exaustivo, fotografar, organizar, ficar em pé e até enfrentar a pequena fila do bar é exaustivo. E reconhecer isso talvez seja parte do exercício que estou fazendo agora.


Viver feliz no meio do caos em pleno 2026 seria estranho, então se você está cansado e puto, você tá no caminho certo, pelo menos na minha humilde opinião. Dito isso, a vontade de organizar algumas palavras aqui tem motivo: elogiar a insistência e a renovação na “subcultura” joinvilense. O Paulera tem insistido em organizar diversos eventos e o Grind Attack, em especial, me levou lá pra adolescência, quando comecei a conhecer os espaços mais subversivos de Joinville.


Reconhecer que estamos cansados e “passar o bastão” para os novos públicos é um exercício necessário em diversas cenas underground. Coletivos começam e acabam, mídias independentes surgem e morrem, bandas trocam de formação, bares abrem e fecham, mas sempre haverá um público inconformado, procurando por um beco escuro para tocar, beber e bater cabeça.


Depois de anos na cena, estou começando a entender que a satisfação não vem do grande número de público, das melhores fotos ou da cobertura profissional. Talvez, e só talvez, o sentido seja aqueles dois ou três personagens que estão adentrando pela primeira vez em um show, tomando o primeiro porre, ou ouvindo assustado o primeiro pig scream.


Nesta última sexta, as bandas Visione Obscura, Guro, Flesh Grinder e Facada propiciaram um pouco de tudo isso. Com gente que fundou o ambiente alternativo de Joinville ao lado de gente que foi pela primeira vez neste tipo de show, pudemos presenciar um respiro sob aparelhos. E nada mais apropriado do que sugerir que vivemos enfermos numa sociedade tão caótica para descrever um show de grind, não é?


Não vou falar do show em si, porque eu finalmente entendi que não importa minha opinião e a arte não depende de resenhas amadoras para justificar sua existência. Eu queria falar mesmo é destes personagens todos que estavam por lá, vendendo camisas, patchs, zines, CDs, roupas customizadas e tudo mais.


Esse lapso de sexta me fez lembrar de uma entrevista que fiz com o Sakis, do Rotting Christ anos atrás, quando a Grécia estava em crise. Em uma das respostas do papo ele comentou: “quando a sociedade está em baixa, a arte está em alta”. Então que esses experientes e novatos inconformados continuem insistindo na cena, pois um dia esse espaço será ainda mais necessário que agora, uma vez que estamos caminhando para o fundo do poço, a sociedade vai precisar de gente que já caminha na escuridão para orientar o rebanho abandonado.



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Obs.: ainda vamos publicar as entrevistas oficiais e bla bla bla sobre o evento, mas isso é com outro pessoal. Isso aqui é só uma opinião/elogio isolado mesmo. Acompanhem as próximas publicações.



Marcus V. Carvalheiro

 
 
 

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